
Hoje, quando acordei, parecia que tudo o que tinha feito naquelas semanas árduas e difíceis tivessem ido por água abaixo... Parecia que todos os meus planos,sonhos,expectativas ficaram submersos sobre um rio leitoso e que eu nunca os poderia destapar.
Senti-me tão frustrada...
Vocês sabem como é mau, depois de tanto esforço e dedicação numa coisa, essa mesma ter sido morta, arremessada para um lá sei onde muito longe.
A minha cabeça começou a escaldar e o meu corpo a doer como se tivesse coberto de nódoas negras e profundas que me tentavam, a todo o custo, arrancar o coração frágil e vulnerável nesta manhã, quando tentei levantar o braço para ver que horas eram no meu telemóvel.
Depois de 4 tentativas sem resultados alguns, desisti, rendendo-me às forças inimaginávelmente brutas mas cheirosas dos lençóis rosas e verdes da minha cama. Afaguei a minha cara na almofada de pêlos beije e lá fiquei, de olhos fechados e com a testa a suar, ausentando-me da realidade passo a passo tentando chegar ao inimaginável. Fiz isto irracionalmente num acto desesperado de tentar omitir as feridas que teimavam a doer mais e mais a cada segundo.
Para que é que lutei? Para que é que me esforçei? Para que é que me magoei? Para que é que me chateei? Para que (...)
Estas perguntas irritantes e dolorosas, que me feriam a cabeça com guinadas fortes mas silenciosas, perduraram horas e horas no meu cérebro morto que já nem se importava não dando mais luta.
Fiquei ali na cama horas e horas, como um ser morto ... Não me queria levantar pois sabia que o meu corpo me ia doer, nao queria, também, pensar pois isso era uma forma de salientar aquelas tão insursedoras guinadas que teimavam em não desaparecer. Será que iria ficar assim para sempre, deitada numa cama com o corpo estacado num estado parapelégico? Talvez sim, talvez não.
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Não sei o que se passou, pois não me lembro de mais nada ...
Só me lembro de sentir uma mão suave na minha cabeça e uns lábios macios e frescos no meu ouvido a sussurrar palavras que eu ainda não estava apta a conseguir identificar mas que queria muito conseguir.
O seu cheiro irresistível era-me familiarmente conhecido mas não conseguia, naquele momento, conseguir pensar em alguma pessoa, mesmo na mais importante, pois aquelas guinadas magoavam-me como um fósforo magoava a inocência de uma frágil criança.
Foi então que consegui abrir os olhos secos e vermelhos consequências das lágrimas salgadas que me caiam pela cara.
Por momentos pensei que eram um deus que me tinha vindo buscar, por outros momentos pensei que tinha morrido e que estava no céu.
Mas depois de esforçar a minha cabeça a pensar racionalmente, vi que aquele ser maravilhoso e realmente bonito era uma das pessoas mais importantes da minha vida, o meu mais que tudo, o meu melhor amigo.
Toda a minha dor desapareceu, todos os meus problemas foram agarrados e trancados numa gaveta muito forte e dura, num canto muito insignificante do meu coração.
A sua voz prenunciava o meu nome fazendo-o o nome mais bonito que alguma vez existira porque estava a ser sussurrado pelos seus lábios em viagem aos meus ouvidos maravilhados.
Ele puxava me delicadamente para o seu colo e o meu corpo, à medida que ele o puxava, ia ganhando mais vida e força.
Parecia que tínhamos sido feitos um para o outro, o meu corpo moldava-se ao seu perfeito e suave encaixando-se em todos os espaços abertos para mim, só para mim.
Tentei que a minha cabeça chegasse perto da sua e que os meus lábios chegassem à sua bochecha rosada e quente para que lhe pudesse mostrar que estava bem. Mas nao o conseguia fazer. Por mais óptima que me sentisse, eu tinha que ser realista... Estava fraca, o meu corpo estava fraco.
E ele, vendo o que eu tencionava fazer mas que não conseguia, puxou-me para mais perto dos seus lábios e beijou-me na cara suavemente e delicadamente. Sentia o seu ar fresco e puro na minha bochecha e por momentos arrepiei-me.
Depois virou mais um pouco a minha cara e segredou-me ao ouvido:
- Já tinha saudades do teu cheiro meu amor.
Eu queria dizer alguma coisa mas não conseguia forçar as palavras a saírem da minha boca sem sabor e seca.
- Err ...
- Amor, agora descansa porque tu precisas. Vou estar sempre aqui.
E colocou a minha cabeça debaixo do seu braço. Conseguia ouvir o seu coração.
Coloquei, então, a minha mão por cima do sitio onde senti o forte, constante perfeito bater do seu coração.
E adormeci com ele a sussurrar-me a palavra "Amo-te" no meu cabelo molhado e desgrenhado. Nada me importava, só ele.
(...)