domingo, 7 de fevereiro de 2010

Mudança.


Mudança é um conceito tão mundano actualmente que se tornou superficial. Mudança de casa, de escola, da cor de cabelo.
Mas... Há aquelas mudanças inevitáveis. Rápidas, violentas. Levam-nos tudo, por tempos infindáveis. Vão sulcando cicatrizes profundas nos mais desprotegidos recantos do nosso ser. Deixam-nos nus, sozinhos perante um mundo frio e cruel. São as mudanças em que um lugar vazio nos passa a enfrentar. Em que uma mão que sempre se estendia recua diante dos nossos olhos. Não a conseguimos agarrar. Desaparece. E o tempo passa. Olha com indiferença, imparcialidade, e continua a andar. Não se importa se alguém é deixado para trás. Não espera. E a luta contra o tempo é difícil. Cada minuto continua a contar, cada segundo corre. E pisam quem luta, quem sofre. E ultrapassam. E deixam para trás.
Mas tudo continua e quase ninguém desta multidão de vida e sentimento diria que algo mudou. Apenas uma alma o sente, enquanto recorda o olhar, o falar, o ser de alguém que já não volta.
Porém, devem ser estas mudanças apelidadas desta forma, quando apenas nós próprios nos apercebemos delas? Quando só nós sabemos o pedaço de ser que nos foi arrancado, que foi e continua a ser sulcado pela memória e saudade? Sim. Pois estas são, para mim, as verdadeiras mudanças. As que vão para além da compreensão do conjunto e afectam verdadeiramente o sujeito.
Avó. Relembrarei os teus olhos de ternura. E a tua voz. A tua simples presença. Ainda me falas. Ainda me olhas. Ainda me tocas. E sempre o farás. Tenho de sorrir, então. Porque se te custava andar é porque usufruiste de toda a vida que tinhas. É porque correste, dançaste, brincaste, trabalhaste. Se te custava falar é porque disseste, riste, cantaste, gritaste. Acima de tudo, viveste. Assim, tenho de soltar as amarras que me prendem. Lutar contra a mudança mas não a aceitar.

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